terça-feira, 29 de março de 2011

Lisbela e o Prisioneiro (Diálogo na prisão)

01:13:00
- Dona Lisbela. A senhora tá tão linda de noiva. Se bem que preferia lhe ver de viúva.
- Como é que você ainda pode brincar numa hora dessas.
- Eu tenho a goela dura. Eu engulo a vida com as pedras. Quase morri de desgosto quando fui traído pela senhora.
- Eu só fiz o meu pai lhe prender pra salvar sua vida. Douglas contou que mandou matar você.
- Não precisa falar mais nada. Isso é que é prova de amor.
-Amor não, piedade. Eu tive pena de lhe ver morto e dei um jeito de você ser preso. Agora o melhor mesmo era você ter fugido com aquela moça.
- O amor é um estranho passarinho. Canta sem ter pena, nasce sem ter ninho. Eu também ia fugir com ela, mas de pena. Sem amor. Mas viver sem a senhora é o mesmo que viver morto.
- Porque que você é assim? Porque que tem sempre que ficar vagando pelo mundo sem ficar com mulher nenhuma?
- Minha sina.
01:14:03
(...)
01:15:06
- E assim tem sido minha vida. Sempre me perdendo atrás do que é bonito.
- Vai terminar trancado em uma prisão.
- Hoje eu estou vendo o sol nascer quadrado, mas a vida é minha mãe. Mas eu vou dar um jeito de sair daqui e vai ser logo. A senhora vai ouvir falar, vai dar uma complicação doida.
- Mas eu não posso fugir do meu casamento. A gente nunca mais vai se encontrar.
- A senhora não é noiva no seu coração. Só é noiva na mão e na palavra.
- Pois é. Mas eu dei a minha palavra e a minha mão.
- Fique mais um pouco Dona Lisbela. A senhora é minha paz. Quando eu estou sozinho o tempo demora demais a passar.
- Eu não posso Leléu. Tá chegando a hora do casamento.
- Já? Como o tempo passa ligeiro quando eu to com a senhora.
- É por isso que eu tenho que me apressar.
- Fique mais um pouco. Eu juro que a senhora não vai perder seu tempo.
- Pra quê? Uma hora vai ter que acabar.
- Vai não. A gente vai viver os minutos de um jeito, que eu vou passar a vida inteira me lembrando. Esse beijo foi nosso casamento.
- Não Leléu. Esse beijo foi nossa despedida.
- Não senhora. Não sabe que todo filme de amor se acaba em beijo.
- Eu sei. Mas já acendeu a luz do cinema. E agora vai começar a minha vida.
01:17:25

Lisbela e o prisioneiro (2003)

segunda-feira, 21 de março de 2011

$#*! My Dad Says

Connie:
- Não se preocupe Ed, nós ficaremos fora do seu caminho. Sabemos que tem uma grande noite com a coitada da vizinha.
Ed:
- Não acho que isso acontecerá. Nós brigamos. Ela acha armas perigosas.
Connie:
- Bem, elas são perigosas.
Ed:
- Só se você não souber como usá-las. Todo homem tem um pênis, nem toda mulher tem um orgasmo!

quinta-feira, 17 de março de 2011

COM OS MEUS BOTÕES

O Tostão me perguntou meses atrás, aqui mesmo em Paris, se o futebol do Denilson lembrava o Canhoteiro (ponta-esquerda do São Paulo que só eu vi jogar, na década de 50). Vinda de quem vinha, aquela pergunta me paralisou. Fiquei postado na praça, sem raciocínio, olhando para o Tostão. Se bem que, quando topamos um craque de bola no meio da rua, vestido à paisana, andando como a gente anda, falando coma a gente fala, nós, amadores sempre nos atrapalhamos. Viramos idiotas. Certa vez fui apresentado a um antigo centromédio do Santos, o Formiga. Depois de um breve diálogo, o assunto esgotado, sem saber por que continuei a encará-lo. O silêncio se prolongava, incômodo, e ainda encasquetei de colocar a mão no ombro do Formiga. Com o polegar, comecei a pressionar de leve a sua clavícula, e me lembro que ele ficou um pouco vermelho. Então me dei conta de que, pela primeira vez na vida, conversava pessoalmente com um botão. Formiga tinha sido um dos meus melhores botões, apesar de meio oval, um botão de galalite, vermelho.

Na minha mesa, Tostão não chegou a ser botão. Eu já era bem crescido quando ele apareceu, e fica um pouco ridículo fazer botão de um jogador mais novo que você. Botões, para a garotada daquele tempo, eram venerados como ícones, beijados, polidos com flanela, concentrados em caixas de charuto e inegociáveis. Pois bem, vi o Tostão deslizar nos gramados e, sem querer desmerecê-lo, era mesmo um homem com braços e pernas. Nem por isso há de nascer um centroavante que se lhe compare, com nunca haverá ponta-esquerda semelhante ao Canhoteiro que só eu vi jogar. Desde já discordo de que, concordando comigo, sustenta que o futebol era muito mais bonito no passado. Ao contrário de nós mortais, que éramos todos mais bonitos no passado, os craques do passado são ainda melhores hoje. Penduraram as chuteiras, mas na permanente edição da nossa memória vão produzindo novos lances memoráveis. Posso vê-los sempre de uniforme, uniformes diferente uns dos outros, num vestiário com o teto cheio de chuteiras penduradas. Reúnem-se em torno do técnico, ouvem a preleção em silêncio, mas não prestam muita atenção. Dispensam alongamentos, entram em capo e já começam a jogar. Não dão entrevistas. Não fazem cera, não atrasam a bola, não cobram lateral, não ficam na barreira, faz cada qual o que lhe dá na telha. E no entanto exibem um belo conjunto, mantendo-se invictos há anos e anos, mesmo porque contra eles não há quem se atreva a jogar. Me vendo de boca aberta, naquela tarde gelada, o Tostão não fazia idéia dos gols que continua a marcar dentro da minha cabeça.

“Ele te lembra o Canhoteiro?”, perguntava Tostão, e de cinco em cinco minutos a pergunta me rebate no ouvido como um gongo, enquanto vejo o Brasil jogar no State de France, sem Denilson. Há o grande Rivaldo, seu estilo de ema, há o nosso Ronaldinho, de quem tudo que se diz não basta, e há um oco. Sim, a ausência de Denilson agora me lembra exatamente o Canhoteiro, cuja camisa Zagallo usurpou na Copa de 58, privando o planeta de ver o que só eu via. Estamos no segundo tempo, Brasil e Escócia um a um, e já me pergunto se barrando o Denilson, Zagallo não pretende barrar o Canhoteiro de novo, 40 anos depois. Maldade minha, claro, pois eis que o Denilson entra em campo, recebe a bola rente à lateral esquerda, passa zunindo por dois escoceses e toca para o meio, de calcanhar. A jogada foi bem em frente à minha cadeira, permitindo-me ver até o branco dos olhos do Denilson, e não direi o que se passou naquela instante com a fisionomia dele. Não direi de quem era a figura que vi num relance, vestindo a camisa 19, porque nem eu próprio acredito nessas coisas. Mas alguma coisa os escoceses também viram, e ali se assombraram, e se atarantaram, e perderam a pouca cor que têm, e bateram cabeças entre si e fizeram um gol contra.

É um garoto, o Denilson, e imagino o que será seu futebol daqui a mais ou menos 30 anos, quando estarei abarrotado de memórias. Seu drible na corrida, calculo que possa chega a algo como a velocidade do TGV Paris-Nantes, embora jamais à do Canhoteiro. Babando de antemão, me vejo a lembrar o Denílson adiantando a bola na medida certa, feito isca, para surripiá-la do bico do pé do beque. Verei o Denilson em nova arrancada, como quem corre num parque, e a bola que corre serelepe ao seu lado, quase latindo. Verei o Denilson desviando a bola sem tocá-la, talvez com um assobio – ele tem boca de assobiador. Verei o molejo dele, trançando as pernas diante do próximo adversário, e, de repente hei de ver o drible de corpo. O drible de corpo é quando o corpo tem presença de espírito.

Se eu fosse menino, faria do Denilson um senhor botão. De tampa de relógio, acho.

Chico Buarque, para os Jornais O Globo e O Estado de São Paulo - 14 de junho de 1998