Duas pombas viviam sobre as vigas de madeira de uma casa antiga que pertencia à família do Sr. Malta. Aurora e Julieta tinham personalidades diferentes, mas isso não fazia delas menos amigas. Passaram toda a vida ali, naquela mesma casa. Não faziam bagunça, não irritavam os proprietários e nem sujavam o local, então viviam tranquilamente. Pelo menos Aurora vivia tranquilamente. O quanto sua paciência com Julieta lhe permitia.
Julieta não deixava a amiga um só minuto em paz. Talvez por não ter ninguém mais com quem conversar ali. Era uma falação só. Fofoca atrás de fofoca. A vida da família parecia sua novela diária e ela não segurava comentário algum. Tudo dentro de sua única e exclusiva visão dos fatos. Para ela, era o que acontecia e o mundo continuava girando. Nada mais importava a não ser falar disto.
Julieta:
- Não está vendo o que acontece, Aurora? Este Sr. Malta não vale um grão de arroz. Sai todas as noites para encontrar os amigos no bar. Bebe todo o álcool possível e só consegue voltar pra casa passada a meia noite. Sinta só o cheiro que fica impregnado em suas roupas! Não vale nada mesmo né!?
Aurora:
- Pare com isto. A casa vai cair para o seu lado.
Julieta:
- Mas veja só como são as coisas, amiga. A Sra. Malta também não deixa por menos. Êta mulherzinha sem vergonha. Acompanha o marido na noite, mas não fala nada. Pelo contrário. Ela trás rodadas e mais rodadas para a mesa. Canta, dança e sapateia. E todos ficam a olhando como uma meretriz!
Aurora:
- Pare já com isto, amiga. Já te disse que a casa vai cair para o seu lado!
Julieta:
- Veja se tem cabimento, Aurora! Será que não vêem o que já fizeram com as crias. O mais velho foi pra cidade grande. Disse que virou ator. Ah, ta. Aposto todo meu milho que está é fazendo programas por lá. E o do meio. Depois de formar advogado foi defender marginais e corruptos. Aposto que é na porta da cadeia que vive. Agora ainda levou o mais novo para ser seu contador e de todos os chefões para quem trabalha. Menino burro esse caçula viu! Também pudera...
Aurora interrompe bruscamente e diz em meio a um rasante em direção à janela:
- Olha só. Eu bem que tentei avisar. Cala essa boca e olha para trás!
Neste momento a única coisa que Julieta vislumbra são seus últimos segundos com uma enorme bola de aço da máquina de demolição vindo em sua direção e levando tudo por onde passa. Em instantes a casa está totalmente no chão e não sobra uma pluma.
O que acontecia ali? Aurora talvez possa lhe explicar.
- O Sr. Malta recebeu uma proposta de uma construtora para construção do maior prédio que a cidade já viu e a costumeira dos encontros para negociação ali eram feitos no bar, regados a muito chopp. Esperto que só, ele levava a Sra. Malta para distrair os empresários e abocanhar um preço maior e mais outras grandes partes da negociação. Assim feito, no final, ele conseguiu quatro super-apartamentos. Um pro casal e um para cada filho.
E os filhos?
- Todos vão muito bem, obrigada.
Simplesmente o que eu acho é que se as pessoas falassem menos e não se preocupassem tanto com a vida alheia, talvez, teriam tempo de ouvir. Principalmente seus próprios amigos.
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