Ele andava cabisbaixo e rápido como se cada passo tivesse sido previamente estudado em toda sua logística. Calça jeans surrada, camisa de malha autenticamente amarrotada por um cochilo e as mãos dentro de uma jaqueta em que tentava espantar o frio. Naqueles dias o frio castigava a cidade e todos os mortais estavam um pouco mais congelados no quesito compaixão. Ele, tido como ‘aéreo’ por sempre pensar, falar e agir diferente, talvez por um capricho de algum deus entediado não entrava naquela lista e seu coração, num choque, pulsou como uma bomba e arrepiou todos os seus sentidos. Na sua análise e estudo da logística daquele caminho ele não previu o acaso. Ela! Linda até o último fio de cabelo e infinita como o céu da cor de seus olhos. Ela já tentara atravessar a rua uma dúzia de vezes e ninguém percebera. Não foi o trânsito que a impediu. Foi seu medo. Agora quando já tinha desistido e estava indo embora de vez, descontrolada pelo insucesso, deu um encontrão frontal com o corpo dele que pareciam dois mundos se chocando. E era verdade. Pediu desculpas mais envergonhada e continuou em seus passos. Ele queria também se desculpar, mas a fala não mais saía. As pernas estremeceram e ele sentou no meio-fio para respirar. Com alguns minutos de meia paz, como é possível em qualquer cidade ‘ligeiramente’ grande, ele estava bem. Só não contava que neste mesmo momento ela estaria pensando no que lhe acontecera. Ela era por assim dizer desesperada por todas as coisas que regiam seus movimentos e até os movimentos do planeta. Olhava horóscopo, consultava à mãe e todas as entidades físicas ou não que lhe encaminhassem nalgum caminho que lhe fizesse bem. Ainda ninguém lhe dissera a bobagem que cometia. Foi então que voltou em sua direção e decidiu de vez entrar no hospital do outro lado da rua. Mais uma vez, por todo o parque ela direcionava seu caminho num passo e ninguém mais a via e havia. No instante em que parou e viu o sinal para o pedestre atravessar, sentiu novamente aquele aperto, aquela dúvida. Mas desta vez ela não percebera, e tinha parado exatamente ao lado onde ele estava sentado. Ele olhou para cima e viu seu horizonte ante o sol. Ela estava parada, congelada e não podia se mover. Ele então pegou em sua mão, levantou, segurou-a firme e disse: “Estou aqui para o que você precisar. Eu estou com você e não vou há lugar algum. Tenho todo o tempo do mundo”.
Todos temos MEDO e não existe fórmula para se fugir dele. O que realmente importa é ter alguém para nos dar a mão nessas horas.
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